21 de março de 2026: construindo algo real enquanto rodo no limite
acordei com o oceano de novo.
falo isso como se fosse algo comum. tem dias que quase parece que é. aí eu me pego e lembro que essa vista, esse som, essa qualidade específica da luz atlântica de manhã — nada disso estaria ao meu alcance em casa. não por esse preço. não dessa forma. isso não passa despercebido, mesmo nos dias em que estou cansada demais pra sentir direito.
e eu estava cansada. as olheiras estavam falando por mim. me olhei no espelho e aceitei, do mesmo jeito que se aceita o tempo que faz. essa é uma fase de construção. eu sei o que estou construindo. os olhos se recuperam depois.
passei a maior parte do dia mergulhada nisso — sistemas de ia, automação, tentando fazer o trabalho conversar com ele mesmo pra rodar sem precisar de mim em cima a cada hora. tem algo genuinamente empolgante nisso e também algo genuinamente humilhante. a distância entre o que consigo imaginar e o que consigo executar num único dia continua grande, não importa quantas horas eu coloque. fiquei me lembrando que existe um ponto de chegada. que não preciso terminar tudo hoje. que adicionar mais um recurso às vezes é só mais uma forma de evitar lançar.
a geladeira ficou quase vazia. tomei a decisão executiva de não resolver isso ainda. fui aproveitando o que tinha, do jeito que a gente faz quando não quer quebrar o foco — e fazer compras em salvador nunca é uma tarefa rápida. exige cálculo. qual mercado. qual bairro. o que realmente tem disponível. como está a situação do cartão. não é difícil exatamente, mas nunca é nada também. quando finalmente me preparei pra sair à tarde, já tinha gasto mais energia mental com compras do que em anos morando no brooklyn.
peguei um uber pra vitória.
vitória é um bairro diferente. dinheiro mais antigo, ruas arborizadas, as calçadas têm uma certa dignidade. tinha gente passeando ao entardecer como se não tivessem nenhum lugar urgente pra ir, o que por si só já é um tipo de luxo. parei num mercado por lá e percebi — mesma rede, sensação completamente diferente. mais calmo. mais abastecido. outra clientela. o mesmo mercado pode carregar um mundo inteiramente diferente dentro dele dependendo de onde você está.
de lá fui andando até uma festa de inauguração.
era uma reunião pequena, maioria americanos, alguns expats de longa data e algumas pessoas ainda decidindo se fazem a mudança. tinha uma mulher hospedada no meu prédio que está pesando tudo isso. as conversas nesses ambientes têm um ritmo próprio — câmbio, segurança, adaptação, o que você sente falta, o que te surpreendeu. já tive versões dessa conversa muitas vezes. não me incomoda. tem algo útil em estar na sala onde outra pessoa ainda está no começo.
mas o momento que assentou tudo foi a comida.
costela. couve. broa de milho. macarrão. salada de batata. vinho.
em algum momento a sala simplesmente ficou em silêncio. não aquele silêncio constrangedor. o outro. aquele em que todo mundo está com o prato na mão e a única resposta adequada ao que está acontecendo é estar presente com isso. música americana tocando no fundo, e algo nessa combinação — a comida, a música, as vozes familiares — chegou fundo. me lembrou das noites de verão no brooklyn quando todo mundo está lá fora, de verdade lá fora. sabe como é. luz demorada, ar quente, nenhum lugar que você absolutamente precise estar.
sinto falta disso. não vou fingir o contrário.
também sei o que tenho aqui. as duas coisas são verdade e estou aprendendo a segurar as duas ao mesmo tempo sem precisar resolver isso.
cheguei em casa. trabalhei mais um pouco. fui dormir mais tarde do que devia.
a geladeira ainda está vazia.
amanhã vai exigir lidar com isso.
tem muito mais a dizer sobre o que realmente significa ser uma americana negra no brasil — não a ideia disso, mas a textura diária de viver isso. esse assunto vai precisar de espaço próprio.
vista pro oceano. geladeira vazia. soul food na sala de alguém. uma sala cheia de americanos que ficou em silêncio no momento em que a comida chegou à mesa. é assim que construir uma vida no brasil realmente parece.
i woke up to the ocean again.
i say that like it is ordinary. some days it almost feels like it is. then i catch myself and remember that this view, this sound, this particular quality of atlantic light in the morning — none of it would be accessible to me at home. not at this price. not in this way. that is not lost on me, even on the days i am too tired to feel it properly.
and i was tired. the dark circles were doing the most. i clocked them in the mirror and just accepted them the way you accept weather. this is a building phase. i know what i am building toward. the eyes will recover later.
i spent most of the day deep in it — automation, figuring out how to make the work talk to itself so it can run without me standing over it every hour. there is something genuinely exciting about that and also something genuinely humbling. the gap between what i can imagine and what i can execute in a single day stays wide no matter how many hours i put in. i had to keep reminding myself that an endpoint exists. that i do not have to finish everything today. that adding another feature is sometimes just another way to avoid shipping.
the refrigerator stayed mostly empty…
ocean view. empty fridge. soul food in somebody’s living room. a room full of americans who went quiet the moment the food hit the table. this is what building a life in brazil actually looks like.
